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Ainda
estou tentando elaborar as emoções que tive
nessa última sexta-feira, após um dia de fortes
emoções no Amparo Maternal. A maternidade estava
cheia, como sempre. Todo o tipo de mulher se espalhava pelos
quartos de pré-parto. Três adolescentes num mesmo
dia, o que eu ainda não tinha visto.
Em menos de meia-hora 2 bebês nascem na cama, antes
que desse tempo de transferir as mães para salas de
parto, lavá-las, colocar campos estéreis sob
o corpo, enfim, sem tempo de preparar o ritual da assistência
obstétrica adequada.
A primeira (era seu quarto filho) nasceu sob o olhar atônico
de uma doula, enquando a mãe (Claudia) conversava animadamente
entre uma contração e outra. Ela agradeceu a
doula Carolina por ter proporcionado a ela que seu filho nascesse
sem dor. A parteira que chegou apressada ainda esboçou
uma bronca, houve uma certa comoção e Claudia
foi levada à sala de parto para a saída da placenta.
Carolina deixou claro que não estava lá para
fazer partos, mas para dar conforto à parturiente.
O assunto morreu. Lá se foi a mãe coelha, feliz.
Menos de meia hora depois, essa doula que vos escreve passava
por outro quarto e viu uma mãe com cara de vai-nascer
(era seu quinto filho). Com a cabeça para fora da sala
chamei a parteira mais experiente, que passava por perto com
o pediatra. Calmamente ela pôs suas luvas e o bebê
escorregou para fora. Essa era uma equipe bem mais calma,
em silêncio recebemos o bebê, que foi delicadamente
limpo nos próprios lençóis da mãe
(Selma). Em seguida o pediatra colocou o bebê sobre
ela, que ficou lá embevecida, iluminada por uma linda
luz matinal. As companheiras de quarto haviam fugido, com
aflição de ver um bebê nascer. Não
é engraçado? Foi um dos partos mais serenos
que já presenciei. Mais uma coelha, calma e calada.
Então fui dar uma força para a Dalva. Terceiro
filho, a primeira um parto rápido, o segundo uma cesárea,
o terceiro teimoso, devia estar em posição desfavorável,
pois Dalva se queixava de muita dor nas costas. Alguns truques,
posição e água, e ela se acalmou visivelmente.
Mas ainda era cedo, e nada de dilatação. Ela
era uma mulher alta e forte, acostumada a carregar peso. A
dor a fazia rugir como uma ursa a cada contração.
Seu corpo forte também foi capaz de segurar por muitas
horas aquele parto arrastado. E ela foi levando, ora comigo,
ora com Carolina. Manhã adentro... Tarde adentro...
Outras iam chegando, ficavam, algumas davam à luz,
e a Dalva lá com muitas dores. Carolina ajudou-a a
ir para o banho. Tinha dilatado mais 2 cm o dia inteiro. Dalva
ficou lá no chuveiro.
Fomos à enfermaria nos despedir das moças que
acompanhamos nos partos, mas antes de ir embora, vimos que
a Dalva tinha conseguido chegar no final da linha e estava
na sala de parto pronta para dar à luz. Parece que
o chuveiro foi um bálsamo para seus medos e suas dores.
Fomos as três doulas ampará-la, torcemos com
ela e fizemos força com ela. Acho que dessa vez fomos
fundamentais, pois havíamos estado com ela o dia inteiro.
A parteira de máscara na frente era uma total desconhecida,
dando ordens, pra baixo, levando o quadril, força assim,
respira. E ela totalmente fora de si, como poderia entender
o que estava falando aquela desconhecida mascarada? E assim
foi que ficamos com ela e assistimos o lindo nascimento de
mais um bebê. E você leitor, infelizmente jamais
poderá saber a intensidade do olhar que ela nos dirigiu
logo que seu bebê nasceu. Não tenho tanta intimidade
com a palavra escrita, que me permita descrever esse olhar.
Havia cumplicidade, entendimento mútuo, agradecimento,
emoção e amor. A ursa deu à luz apesar
(ou por causa?) de tudo o que tinha passado.
Eram sete da noite, havia acabado o expediente e fui me despedir
dos maridos e mães aflitas que aguardavam outros partos.
Já estava amiga dessas pessoas, pois eu era a única
conexão que elas tinham com seus entes queridos que
ficaram fechados lá dentro. Cada vez que eu saía
elas me cercavam e queriam saber como estavam os partos, as
dores, as contrações. Qualquer notícia
deixava-as mais calmas. Uma mãe (Joana), me pediu:
- Dá para você dar uma olhadinha na minha filha?
Ela tem cabelos longos e pretos, tem 15 anos e está
muito assustada.
Bom, quem me conhece sabe que não precisaria mais nada
para me arrebatar o coração.
Corri de volta para o centro obstétrico, procurei na
sala de pré-parto onde quase 10 mulheres se enfileiravam
em leitos cobertos com lençóis de várias
cores. E em um canto, com os olhos arregalados de pavor, encontrei
Ana Paula, 15 anos, cabelos longos e pretos. Um criança,
meu Deus. Tinha chegado há uma hora com 4 centímetros
de dilatação. Eu sentei na cama junto a ela.
Ana Paula segurou com força meu braço e começou
a balbuciar que estava com medo de morrer. Queria a mãe,
queria sair de lá. Eu expliquei que a mãe não
podia entrar ainda. Mas ela tinha contrações
uma em seguida da outra. A cada contração ela
me segurava com força: o braço, meus cabelos,
meu rosto. Quando passava a contração ela relaxava
fazendo carinho no meu rosto. Eu fui explicando que estava
tudo certo, que estava tudo bem, e ela me fez jurar que não
sairia do lado dela. Não precisava. Largá-la
ali sozinha seria para mim o mesmo que largar uma parte do
meu corpo. Provavelmente o coração.
Ela começou a me abraçar forte na contração,
e eu a abraçava de volta, sussurrando ao seu ouvido
palavras simples: está tudo bem, Ana Paula, fique calma,
eu estou com você. Ela foi passando do pavor à
força incontrolável. E começou a fazer
força. Eu percebi que ela ia dar à luz. Mas
ela mal havia chegado! Depois de ver duas mulheres parindo
na cama, achei melhor chamar a parteira, que se assustou com
a fúria da menina. Ela não queria ser tocada,
não queria que lhe abrissem as pernas. A parteira dizia:
assim não vai dar para eu te ajudar! A parteira declarou:
essa vai dar trabalho. Ana Paula chorou: e não vou
dar trabalho... A parteira me informou: dilatação
completa, ainda falta o bebê descer. Pedi a ela que
deixasse-nos ir pra a sala de parto, pois eu poderia chamar
a mãe. Ela permitiu. Fomos nós duas para a sala
de parto, nas contrações ela me abraçava
de frente e soltava o corpo, dobrando as pernas para cima.
Simplesmente ela se pendurava em mim. Felizmente era pequena,
de outra forma iríamos as duas (ou melhor, três)
para o chão! Eu pedi que ela me deixasse ir chamar
a mãe. Não saia de perto de mim!!! Tive que
chamar uma enfermeira no corredor, tudo estava indo rápido
demais.
Chegou a Joana, com os olhos marejados e disse para a filha:
firme aí, Ana Paula, eu te disse para fazer força,
certo? E isso a menina sabia fazer! Deitada na cama, com as
pernas apoiadas nos pedais, quando chegava a contração
ela me abraçava com toda a força. Pediu água,
eu disse que ia pegar e ela ficaria com a mãe por 1
minuto. Ela disse não, a mãe pegaria água,
eu ficaria com ela. A parteira chegou e levantou os remos
da cama, explicando que ela deveria segurar e puxar na contração.
Ana Paula olhou aquilo e disse com um aceno das mãos:
eu não quero isso aí, quero ela - disse apontando
para mim. A parteira não prestou atenção,
concentrada na preparação do material. Eu então
perguntei: eu e a Ana Paula achamos um ritmo bom de ficarmos
abraçadas na contração, você permite
que a gente continue dessa forma? Ela deu de ombros.
Tudo pronto, parteira a postos, vinha a contração,
um abraço apertado, Joana dizia: isso, minha filha,
está nascendo, muito bem! Eu sussurrava no ouvido:
lindo, Ana Paula, você está indo muito bem, seu
bebê está nascendo, está chegando. Muito
bem, muito bem... Caro leitor, não sei se consigo fazer
entender a força que essa menina tinha, pois a cada
abraço muito apertado que ela me dava, ela botava o
dobro da força na expulsão do bebê. Era
uma força descomunal. Ela tinha 15 anos, mas tinha
a força de uma leoa. De onde veio tanta força?
Ela não estava mais com medo, ela estava tão
concentrada que eu dizia: você está indo bem,
ao que ela retrucava: eu sei, eu sei.
E ali, entre nós três, entre tanta energia feminina,
às oito e vinte da noite, nasceu Felipe, com um choro
forte de filhote de leoa. No exato segundo em que ele nascia,
Ana Paula abriu os olhos e gritou com os braços à
frente: MEU FILHO, MEU FILHO NASCEU! VALEU A PENA! MEU FILHO,
MEU FILHO!
Ela chorava, Joana chorava e eu chorava. Ficamos as três
mulheres chorando e soluçando com a emoção
daquele nascimento, daquele momento sagrado. Mais uma vez
lamento que você leitor não estivesse presente
para sentir a energia que fluia naquele quarto, naquela hora.
Era palpável, era densa. Uma leoa havia dado à
luz.
Ainda ficamos juntas por uma hora, enquanto a parteira dava
alguns pontos, e conversávamos futilidades, meio sem
rumo, como que flutuando. Depois da despedida fui para casa
e chorei no caminho. Chorei sem motivo aparente. Sem muito
nexo nem sentido, deixei que as lágrimas rolassem.
Não dava para segurar aquilo tudo dentro de mim. Ana
Paula agora vive dentro de mim e uma parte do meu coração
ficou com ela. Para sempre.
Estamos para sempre conectadas por um fio invisível
de amor, de sintonia e de energia.
Coincidentemente nesses dois dias nos quais tenho tentado
elaborar esses nascimentos, li duas mensagens muito interessantes,
uma sobre profissionais que não choram diante de emoções
para serem "éticos", e outra sobre a Glamour-Girl
e sua reação diante da força de um nascimento.
Como é possível permanecer com os olhos secos
e a atitude fria diante de um acontecimento dessa proporção?
O milagre da vida se repetindo incansavelmente pode ser invisível
aos olhos de algumas pessoas?
Impossível perder a sensibilidade sem um custo muito
grande para a alma (ou coração).
Fico feliz de ser doula e não ter que prestar atenção
em detalhes técnicos. Eu fiquei com a melhor parte:
a emoção.
São
Paulo, 22 de setembro de 2002.
Ana
Cris Duarte é doula em São Paulo, SP
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