|
Hoje
fui voluntariar no Amparo Maternal.
Lá sempre tem mais mulheres parindo do que muitas parteiras
possam dar conta. Geme daqui, geme de lá... Grita daqui,
chora de lá. Sessenta bebês por dia. Mulheres
num isolamento de dar dó, querendo uma mão para
apertar. Apenas isso. "Não vai embora, doutora.
Fica aqui comigo, por favor."
Entre todas, me encantei pela Viviane, 19 anos, primeiro bebê,
Mateus. Assustada, dizia: "Eu quero cesárea, doutora.
Tá doendo, eu não agüento mais". Levei
15 minutos para convencê-la de que eu não era
doutora, não era senhora, não fazia cesáreas
e não tinha o poder de mandar alguém fazer.
Ela tinha um rosto de anjo. Lembrava-me alguém que
já se foi, com aquele queixo delicado e o meio sorriso
no rosto que mostrava singelas covinhas. Me encantei com Viviane.
Era uma menina quando eu cheguei lá. E quando eu me
fui, ela era uma mulher. Uma das mais fortes e corajosas que
já tive a honra de conhecer.
Lá ficamos nós, das 9h da manhã até
15h, juntas, dançando a dança das mulheres.
Abaixamos, levantamos, acocoramos. Nos abraçamos na
hora das contrações. Banho de imersão,
banquinho da parteira. Demorou para descer esse menino! E
nós conversamos muito com ele. Vem, Mateus, que aqui
também é bom!
Durante o parto fiquei ao lado dela, tentando-lhe incentivar.
Pareciam palavras ao vento, pois ela estava absolutamente
poderosa em suas forças. Concentrada, apesar do cansaço.
E lá veio Mateus lindo chorando num tom de rosa que
eu ainda não conhecia, de tão intenso. Ficaram
lá abraçados como dois amantes. Ela respirou,
olhou para mim e disse: Eu nunca vou te esquecer. E voltou
a se ocupar de seu pequeno Mateus ali em seu colo.
Não sabe a Viviane o quanto ela me emocionou. O quanto
aquele parto também foi parido por mim. Não
sabe ela o prazer que tive de acompanhá-la, de estar
aconchegada a ela durante tantas horas, no auge de suas forças.
Não sabe ela o júbilo de vê-la parindo
a natureza, a luz, o futuro. Tenho os braços e pernas
doloridos das forças que fizemos juntas. E gostaria
de sentir essa dor por muitos dias ainda.
Ana Cris
São
Paulo, 30 de julho de 2002.
Ana
Cris Duarte é doula em São Paulo, SP
|