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O
papel da doula
Nestes
18 anos de obstetrícia, a observação dos partos
e das pessoas que participam deles me fizeram concluir sobre a importância
da figura da doula, ou, algumas vezes, doulo. Por isso organizei um
curso de formação no ano de 2001, talvez o primeiro curso
oficial de formação de doula no Brasil, para ajudar, motivar,
difundir, e capacitar mulheres a ajudarem outras mulheres no parto.
A motivação
básica que me levou a organizar este curso foi a observação
dos resultados dos partos em que houve o trabalho associado do médico
e de um acompanhante de parto. Este acompanhante nem sempre era alguém
profissional. Às vezes era uma amiga, a mãe, a família
(nos casos de mães sozinhas), a preparadora para o parto, a professora
de yoga, e muitas vezes meu irmão Dr. Luiz Meira, que me auxiliou
em vários partos.
Esta figura
sempre existiu na história da humanidade. O parto sempre foi
uma ocasião que a parturiente necessitou de ajuda. É incomum
que uma mulher faça o seu próprio parto, embora existam
alguns exemplos.
Então
a primeira questão é falarmos sobre o PAPEL da doula,
para que possamos defini-la. Fundamentalmente é alguém
que vai estar ao lado da parturiente, sem o compromisso de um oferecer
auxilio médico, ou obstétrico. Um auxílio biológico,
isso sim. Um apoio afetivo, emocional, segurança. É alguém
que vai estar junto para o que der e vier. Mas este papel não
está totalmente formatado, por ser uma atuação
relativamente recente, e sua entrada na equipe de parto mais recente
ainda.
Esta relação
com a parturiente vai se fundamentar em 2 vertentes básicas,
dois meios de comunicação: verbal e manual. Provavelmente
o segundo seja mais importante, porém não podemos diminuir
o valor do primeiro. Acho que se complementam. Por isso no curso foram
oferecidas várias possibilidades práticas: massagens,
toques, trocas, pontos de acupuntura, reflexologia, etc. A doula, na
minha opinião, deve saber como ajudar uma parturiente a lidar
com a dor e a relaxar.
A
evolução da assistência ao parto e no controle da
dor
Desde
a década de 30 que o Dr. Read ressaltou que o MEDO (desconhecimento)
leva à TENSÃO, esta por sua vez leva a DOR que aumenta
o medo, e assim perpetua-se o ciclo. A doula vem para aumentar a segurança,
quase como uma mãe, trazer segurança e quebrar este ciclo.
Na década
de 50 ressaltaram-se no mundo as técnicas de respiração
para diminuir a dor (antes da invenção da analgesia de
parto), pela prática de um médico francês (Lamaze),
que se popularizou com a respiração conhecida como cachorrinho.
Ele simplesmente observou que os animais faziam assim no parto, mudavam
seu padrão de respiração, que por coincidência
é a mesma que se observa na relação sexual...
Na década
de 60 Leboyer brindou o mundo com sua poesia e fotos maravilhosas, algumas
chocantes que diziam mais que muitas palavras: o bebê também
era um SER HUMANO e que merecia respeito, silêncio, carinho e
não palmadas para chorar. O bebê sente dor!
Na década
de 70/ 80 Michel Odent na França abriu o caminho no tocante ao
trabalho associado com as parteiras e uso de água em sala de
parto, lançando um livro revolucionário que está
sendo traduzido para o português: O RENASCIMENTO DO PARTO.
Creio
que mais recentemente tomamos consciência que o excesso de tecnicismo
deixou uma lacuna, um espaço vazio, que agora está sendo
preenchido pelo trabalho das doulas, que é a atenção
sutil ao parto, assistência à parturiente e não
a uma barriga ou útero que se contrai.
Precisamos
tomar consciência que estamos abrindo um caminho, como bandeirantes,
e que isto vai ser custoso. Vai ser aberta uma picada no facão.
Vamos gerar uma nova consciência, vamos deixar um rastro com o
nosso proceder.
Na verdade
os maiores beneficiados serão os casais grávidos que vão
dar à luz de uma maneira mais assistida.
Doula como atividade profissional
Existem
muitas questões envolvendo o surgimento desta nova função,
que é uma atividade profissional, visto existir uma questão
terapêutica envolvida, e que a doula, vai deixar sua casa, se
locomover, e ficar até 15 ou mais horas trabalhando de uma maneira
desgastante para ajudar sua cliente. É um serviço.
O nome
DOULA vem do grego que quer dizer "serva", ou a que assiste.
Então doula é assistente. Vai ter um vínculo com
sua cliente. Ela vai escolher e "contratar" seus serviços.
Deve, portanto estar DISPONÍVEL, mesmo que seja de noite, e deve
estar LOCALIZÁVEL, com celular ou qualquer outro meio. Vai abrir
mão de atividades familiares, pois o parto não tem data
nem hora. Acho que futuramente os hospitais vão ter doulas contratadas,
para melhorar a qualidade do atendimento em geral.
O vínculo
precisa começar na GESTAÇÃO, pois é baseado
em uma relação de entrega, de confiança, de fazer
os gostos, que devem ser discutidos com antecedência. Então
a doula tem que estar preparada para oferecer elementos que vão
ajudar esta grávida a se preparar para o grande dia, o dia em
que vai dar à luz. Costuma-se comparar com o escalar de uma montanha.
Tem que haver treinamento, mas nada vai ser como o grande dia. Somente
prenúncios. Vai ter que ensinar a relaxar, a respirar, a se posicionar,
a como se relacionar com o sistema de atenção obstétrica,
a como "brigar" para que o parto saia da maneira que ela quer...
e vai ter que respeitar os gostos e desejos da grávida, mesmo
que esta queira uma cesária....
Não
creio que para ajudar uma parturiente a doula precise participar e assistir
muitos partos. Na verdade o parto não é o objeto de atenção
da doula, mas a parturiente. Por isso não vamos ter "estágio"
de partos, mas estágio do que fazer na prática, e fazer
várias vezes até aprender. Na verdade a preocupação
da doula, não é se o parto vai acontecer normal ou cesária,
ou como vai nascer o bebê, mas como a gestante vai passar por
tudo isto, como vai lidar com o parto que não vai sair do jeito
que ela gostaria, como se adaptar aos diferentes sistemas de atenção
obstétrica, privados e públicos, com diferentes níveis
de permissão.
Em um
futuro bem próximo este momento vai entrar para a historia da
assistência ao parto como o período que a parturiente e
a grávida receberam reconhecimento de suas reais necessidades,
emocionais, físicas e de segurança e de afeto.
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Dr.
Adailton Salvatore Meira Médico Homeopata, Ginecologista e
Obstetra Campinas, SP
email: salvatore@terra.com.br
site: www.maternatura.com.br |
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